segunda-feira, abril 10, 2006

No dia em que fugimos tu não estavas em casa

(...) E a partir do momento em que tu dizes que queres comprar um gelado, eu derreti-me e transformei-me num Corneto dos bons. A verdade é só esta: a partir desse momento, da mágica inocência desse teu desejo, eu fui o teu gelado e por isso é que não desliguei. E por isso é que empatei o tempo suficiente para que não fosses logo comprar e assim me desses a doce ilusão de que eu valia mais que um Perna-de-pau, do que um Solero, do que todos os outros gelados. E à medida que falavas era como se eu fosse o teu gelado, sentindo-te a trincares a fina casca que me envolve antes de chegares ao recheio. Estou toso derretido, estou a sentir-me trincado em pedacinhos muito, muito pequenos e todo eu flutuo na tua boca, em mariposa ao sabor da tua língua. E tu enrolas-me, saboreias-me e por fim empurras-me para um poço muito escuro, onde vivo à espera de todos os outros bocados de mim que eu sei que ainda aí vêm. Antes mesmo de me trincares passas os teus lábios por todo o meu corpo deixando um rasto húmido e perturbador que me deixa à espera da última trinca. Aquela que me faça desaparecer.
Nada mais interessa; por uma tarde eu já fui o teu gelado.


Fernado Alvim
No dia em que fugimos tu não estavas em casa / 2003

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

o capitão alvim e o seu amor em cuecas

terça-feira, 11 abril, 2006  
Anonymous e-clipse said...

é um livro que se consome muito rapidamente... é o verdaddeiro amor, aquilo que por vezes as pessoas não conseguem dizer...mas que sentem

terça-feira, 11 abril, 2006  
Anonymous P2P said...

http://www.janelanaweb.com/digitais/alquimistakan.html

deem uma olhadela

sexta-feira, 14 abril, 2006  
Anonymous Anónimo said...

Wonderful and informative web site. I used information from that site its great. » »

quarta-feira, 14 fevereiro, 2007  
Anonymous Anónimo said...

That's a great story. Waiting for more. »

quinta-feira, 15 março, 2007  

Enviar um comentário

<< Home